segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Finalmente a ultima parte....




O que começa mal não pode acabar bem. Aqui vai o resto..



Hoje estava mais madura e, também, perdera muita da ingenuidade que sempre fizera parte da sua personalidade. Já não corava quando sentia que algum homem olhava aprovadoramente para o seu corpo, pelo contrário, lançava um olhar capaz de desconsertar o mais descarado.
Passou a tirar partido daquilo que Deus lhe tinha dado, e ficava vaidosa quando lhe diziam que as filhas mais pareciam suas irmãs.

Acabara de fazer um ano que o Amadeu foi enterrado e sentia que a vida sem um homem a seu lado era mais vazia. Não era só pela necessidade física, mas também pelo conforto de ter alguém para compartilhar as nossas mágoas e alegrias.

Heitor não era filho da terra, nasceu num monte alentejano. Filho de uns abastados agricultores que tinham, ninguém sabe como, amealhada uma considerável fortuna, que com a mesma facilidade com que a construíram também a conseguiram esbanjar. Dona Alzira, a mãe, para esquecer as loucuras do marido vivia embrulhada em todos os trapos que os costureiros da moda punham no mercado. O pai, José Romão, passava os dias com as meninas que o adulavam, lhe satisfaziam os caprichos e lhe iam esvaziando a carteira. Á noite o casino fazia o resto. Quando deu por isso, tudo o que sobrava era um pedaço de terra e uma pequena casa, sobras de uma herança dos pais.

Dai em diante foi o desabar de uma família. José Romão foi encontrado certa manhã pendurado num chaparro, com um palmo de língua negra a sair da boca escancarada. Dona Alzira nunca mais disse coisa com coisa e acabou por ficar no lar das freiras que acudiam a estes casos de misericórdia. Amadeu, na altura com 19 anos, apresentou-se como voluntário na tropa.
Foi para África, comeu o pão que o diabo amassou. Sentiu no corpo e na alma uma guerra que não era dele.
Voltou dois anos depois, diferente. Amargurado, com medos, com pesadelos.
Não era o mesmo Amadeu. O outro ficou para sempre perdido no imaginário dos camaradas desaparecidos.
Voltou ao seu Alentejo, donde nunca deveria ter saído. Andou desenraizado, estranho, perdido, procurando um rumo para a sua vida.
Restaurou a velha casa e transformou-a num estabelecimento que tudo vendia. Era o princípio de uma nova vida, que corria simples e monótona.
Depois conheceu Emília e a sua vida mudou.
Ficava à porta só para a ver passar, suspirava como adolescente apaixonado.
Tinha ciúmes do Amadeu.
Naquele dia não abriu a loja. Saiu cedo e quando voltou vinha transtornado.
Acalmou e voltou à sua rotina. Agora a Emília estava livre, agora já podia ser dele.



O dia começou, de repente, a escurecer. Os pequenos cirros que há pouco cobriam o céu, começaram a tornar-se em nuvens escuras.
Os trovões ribombaram e os raios cortavam os ares como chicotes de fogo.
O vento abateu-se com fúria e a chuva desabou copiosamente, inundando tudo e todos. O pequeno ribeiro saiu do seu leito e invadiu a terra como se fosse um oceano em fúria. Arrastou árvores, invadiu as casas e deixou um rasto de morte e desolação.
Choveu copiosamente durante 45 minutos.
Houve quatro mortes a lamentar.

Heitor lutou com todas as suas forças. A água invadia a loja e a fúria da corrente arrastou-o para a rua. Esbracejou, tentou agarrar as paredes, as árvores. Deixou as unhas vincadas no chão por onde o corpo se rebolava, se arrastava. Foi impotente, a fúria era maior. Tentou gritar, chamar Emília, mas a lama invadiu-lhe a boca, a faringe. Queria respirar mas já conseguiu. Sentiu a vida a fugir no emaranhado de terra, de água, do frio.
O fantasma do Amadeu dançava na sua frente, com um riso sardónico que lhe martelava os ouvidos.
O filme da sua vida passou de repente mas já mal conseguiu recordar o passado.
Via desfilar os camaradas que estropiados por uma guerra que não pediram e que lhe estendiam as mãos.
Depois.... o coração deixou de bater.
Foi a escuridão total.
O vazio.

Emília fez as malas. Nada mais a prendia aquela terra.
Despediu-se dos filhos, apanhou a camioneta e desapareceu.
Não foi fácil tomar esta decisão....
Ninguém sabe para onde foi.
Dizem que está na Suiça.
Nunca mais voltou à aldeia.

2 comentários:

Filipinha disse...

Pois... "Fugir"... "Ir embora"...

Adorei!!

AnaT disse...

Eu tb gostei, apesar de todo o trágico final... (mas isso é pq o Manuel já sabe que eu sou uma romântica e que gosto mm é de finais felizes) Mas tinha que ser assim, porque nem sempre no Amor e na Guerra vale tudo! Mas parabéns! (E continuo a achar que se devia publicar)