terça-feira, 2 de março de 2010

Morreu o coronel




Era a confusão generalizada no lugar da Dona Odete.

O estabelecimento é quase como uma tertúlia onde se cosculham e debatem os grandes e pequenos acontecimentos do bairro.

Enquanto se escolhem as hortaliças, ou se apalpam os tomates para salada do almoço, são dissecados os eventos que animam o dia-a-dia.

Mas hoje a agitação ultrapassava o habitual.

Dona Perpetua, pujante nos seus 98 quilos, não se cansava de repetir:

-Mas como vamos dizer à pobre da Dona Alzira que o coronel está morto. Sim… porque ele está mesmo morto. Eu vi com estes que a terra há-de comer. Coitadinho, estava mais tesinho que um carapau.

Dona Odete espetou um dedo e com ar, quase, ameaçador gritou:

-Mulher tenha mais cuidado, pois com tanto apalpar deixa-me os tomates mais moles que uns que eu cá sei. Escolha os que quer e deixe os outros em paz!

-Mas Dona Odete, gritou a acusada, está preocupada com a merda de uns tomates quando temos um problema mais grave? Sim, é preciso ir alguém dar a triste notícia à pobre da senhora. Afinal ela tem que saber que o pobre coronel se finou.

Esperou a aprovação geral, sei lá, se calhar umas palmas seriam mesmo a calhar.

Mas não, todas ficaram caladas esperando, expectantes, uma ideia salvadora. Sim, ir dizer à triste da Dona Alzira que o seu coronel tinha esticado o pernil não era tarefa fácil. A pobre senhora já estava bem passada, pela idade, e o coração podia pregar uma partida.

Algumas, das freguesas, iam guardando as hortaliças e escapavam pela direita baixa, quase como a querer passar despercebidas. Essa coisa de levar notícias necrológicas não vinha nada a calhar.

Dona Perpetua, com toda a imponência que o seu aspecto difundia, colocou as mãos nos “apneusados” quadris e vociferou:

-Já sei! Vai-me calhar a mim, estão todas a fugir, acagassadas, com o rabinho entre as pernas e cá a Perpetua que se amanhe.
Eu vou! Alguém tem que o fazer.

Mas logo me havia de calhar a mim. Sim a mim… que até detestava o maldito cão que todos os dias me ia mijar à porta.

Mas tem que ser.

Eu vou, pronto eu vou!

2 comentários:

Sonhadora disse...

Manuel
Muito bom o teu texto, muito real.

beijinhos
Sonhadora

Elaine Barnes disse...

As notícias ruins precisam de alguém forte e seguro para dar. Ela se mostrava preocupada e decidida;coajosa e indagadora, sobrou pra ela! Seu texto é muito bom e mostra que nosso comportamento diante da vida determina as situações as quais nos envolveremos. Montão de bjs e abraços