segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Paradoxo








Havia algo de estranho naquele amor, um pouco irracional e com tantas contradições, mas era um amor.

Ricardo era um rapaz que emergiu, quase por encanto do nada, apareceu assim de repente de uma província que nunca explicou, filho de ricos fazendeiros que ninguém conhecia e licenciado em direito numa qualquer universidade que nunca foi confirmada. É uma pessoa de falas mansas, tímido,  delicado em demasia e com excessiva amabilidade. Quase fastidioso.

Mafalda é uma morena a que Deus, generosamente, deu tudo o que qualquer mulher deseja, beleza, sensualidade, inteligência e uma certa dose de estudada ingenuidade.

Eram diferentes, ou mais propriamente, eram totalmente opostos, quase como  a luz e a sombra.

Havia, no entanto, uma atracção inexplicável, um amor quase doentio, uma cumplicidade que ninguém conseguia entender.

Viviam numa paixão que parecia estranha, mas não, era apenas diferente pelos contrastes, pelos comportamentos e, um pouco, pelo insólito.

Bebiam as palavras, olhavam-se de uma forma tão doce que acabavam por enjoar quem os observava.

Um dia desapareceram. Durante uns tempos ninguém os viu, tentaram adivinhar onde poderiam estar, o que teria acontecido?

Muitas conjecturas, mas na verdade ninguém sabia os motivos dessa ausência.

Não foi grande, foram apenas 28 dias, mas todos notaram, faziam falta para matar a rotina, para alimentar os falatórios à porta do café, para amenizar as más disposições da dona Efigénia que, debruçada na janela ia observando e comentando todos os acontecimentos visíveis no escasso horizonte do seu poiso habitual.


*****

De repente, tal como se eclipsaram, aparecerem de novo no seu mundo.

Tudo parecia ter voltado à normalidade mas as coisas a, pouco e pouco, iam mudando.

Aquele amor, que iam pingando na doçura do olhar e a ternura, daqueles afagos, começaram a escassear.

Deixaram de ser os mesmos.  Andavam juntos mas era como se não se conhecessem.

A troca de caricias e os carinhos foram mudados para indiferença e ares sisudos. Não se olhavam, davam o braço numa tentativa de encobrirem uma situação tão visível que esconder era, apenas, uma forma de tornar mais visível o que todos já tinham percebido.

Chegavam no carro e ele já não lhe ia abrir a porta, como sempre o fizera.

Eram um casal, mas não o mesmo que todos conheciam.

Parecia que ainda havia amor, mas a chama era tão trémula que ninguém a percebia. Só eles.

Ninguém sabia mas a dona Efigénia, no seu posto de observação, descobriu tudo.

Era fácil, agora os dois usavam aliança, tinham casado.

Afinal era tão óbvio.










21 comentários:

Parole disse...

Mais um conto delicioso, Manuel.Casamento é complicado, mas penso que não seja ele o culpado, mas sim o fato deles serem muito diferentes.

Beijinhos, querido e boa semana.

✿ chica disse...

Lindo e que pena que apenas por casarem, as coisas mudaram,né? Adorei ler! abração,chica

SDaVeiga disse...

As anilhas não dão sempre resultado, mas ainda bem qie há honrosas excepções!

Curto, mas muito bem conseguido Manuel.

Beijinhos

Rain disse...

Espectacular conto Manuel. A quebra da magia, do encantamento. E a vitória da rotina que se instala tantas vezes para matar o sonho. Arrefecer o amor. Beijinho amigo adorei. Boa semana!

Flor de Lótus disse...

OI,Manoel!Pois é parece que o casamento tem esse poder de apagar com a chama do amor deve ser por isso que eu tenho tanto medo de me casar e acho que se eu casar um dia vou pensar um zilhão de vezes.
Beijossss

Bloguinho da Zizi disse...

Que coisa!
As pessoas conseguem por conta de umas alianças e talvez um ritual fazer uma transformação na vida que não entendo.
Por que não namorar a vida toda? Seriam as alianças amarras malditas que destroem qualquer encanto?
Adorei Manuel!
Beijinhos

quem és, que fazes aqui? disse...


Bem real! Há tantos casos idênticos.

Como sempre, excecional!

Beijinho

Laura

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Parece-me que casaram para pior.
A vida depois de casados curte-se de um modo mais perfeito mas ainda mais intenso.
Se algo mudou foi fingimento que usaram durante o noivado.
É agradável recordar estas personagens-

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Dona Efigênia sabe de tudo!!!!
vim te ver, meu Rei e me deliciar com teus contos

rosa-branca disse...

Olá amigo Manuel, como é que um simples papel e uma aliança muda tudo? A verdade é que muda e eu conheço bem demais esse episódio. É pena porque o amor devia de ser regado e alimentado sempre. Mais uma linda história que adorei como sempre. Deixou-se enganar meu amigo? Bem...a ideia era essa, embora eu pensasse quando fiz o poema que não conseguia enganar ninguém. Beijos com carinho

Smareis disse...

Oi Manoel,
Seus relatos como sempre excelente.Por vezes o casamento tem essa transformação. O cotidiano a rotina é grande vilã num casamento.
Existem muitos casos assim.

bjs e ótima semana!

nikita disse...

Gostei muito de o ler, o que não é novidade.
Uma história que parece repetir-se cada vez mais. Mas será o casamento? Ou antes as pessoas?
Há tantos exemplos... de casamentos mágicos, de uniões mágicas e o contrário...

AFRICA EM POESIA disse...

Manuel
Esta vida é mesmo um paradoxo.


Isto anda mau eu verde de raiva
espero novidades o mais breve possível isto não pode mesmo continuar assim.


beijos

Manuel disse...

Centelha Luminosa deixou um novo comentário na sua mensagem "Paradoxo":

Meu querido Manuel, bom dia !!

UM conto explêndido pra nos revelar a verdade para uma pergunta fatal:

Existe vida após o casamento? rsss...

As vezes, observo casais enamorados, trocando beijos e carícias, em público, e eu penso: esses daí não são casados!!!

Gostei demais, meu querido, como gosto de todos os teus contos.

E adorei a sua visita, sempre tão esperada por mim!

Beijos da amiga de sempre, LU...





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Publicada por Centelha Luminosa em navoltadotempo a 29 de Novembro de 2012 01:49

Vivian Fernandes de Goes disse...

Olá,Manuel!!

Ah! Meu amigo!!!Um belo conto, mas triste pensar que o casamento possa ser um entrave na paixão...uma pena.
Graças a Deus há exceções!
Beijos e meu carinho!
*A correria vai diminuir um pouco...rs Já entreguei todos os trabalhos, só faltam as provas...
Mas posso dizer que estou amando este mundo das letras,é um prazer ir ás aulas!Escolhi acertadamente!

SOL da Esteva disse...

Um Conto "verdadeiro" para vários casos que conheço... infelizmente.
O Amor parecia ser demais para demonstrar no namoro. Depois de casados, a verdade a subir ao cimo da água, como o azeite (dizemos nós Portugueses).
Na verdade, não havia Amor; antes o desejo físico, como se vai vendo pelos mais diversos locais... como no teu Conto.
É um alerta que dá que pensar!...


Abraços


SOL

Magia da Inês disse...

♡.¸¸.•°
Olá, amigo!

Desculpe-me, mas não consegui ler o seu texto. Estou muito triste porque meu cachorro morreu. Volto depois e leio e deixo um comentário.

Um ótimo fim de semana!
Beijinhos.
Brasil

♡♡♡.¸¸.•*`*

nikita disse...

Venho mais uma vez agradecer a sua visita. Já respondi ao seu comentário e posso dizer que não nos conhecemos de agora :-)
Será sempre bem vindo.

Beijinho

Mary disse...

Ahhh!

achei que ia terminar no mistério, onde eles estariam, todos curioso,e eles felizes:(.

Mas tu tão sábio, sabes que a maioria dos relacionamentos terminam assim.

É só por a bendita aliança e muda tudo, e olha que muitos ao saírem de casa retiram do dedinho rs

bjo para o rei dos contos.

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Meu querido Manuel

Mais um belo conto...por vezes é mesmo isso, o casamento mata o amor...a rotina instala-se.Adorei como sempre.

Beijinho com carinho
Sonhadora

Janita disse...

Olá Manuel.

Desta vez posso dizer que previ o que a D Efigénia adivinhou... Verdade!
Quanto à atracção mútua, apesar de terem temperamentos diferentes, sempre ouvi dizer que os extremos se atraem. É na diferença que as pessoas se completam, não acha?

Um abraço, Manuel!