quinta-feira, 3 de abril de 2014

Vendetta









Dona Bebiana estava preocupada, sempre tentou ser boa mãe, deu tudo pelos filhos.
O Ernesto, o mais velho, tomou rumo na vida, sempre foi carinhoso, amigo dos pais e mesmo agora que está a acabar o curso, no estrangeiro, todas as semanas telefona no computador, nessas coisas modernas do Skype falam e, ao mesmo tempo, estão todos ali na sala, cara a cara, olhos nos olhos. Deus abençoe quem inventou estas modernices!

Agora o que a estava a atormentar era a Clarinha, tinha só 12 anos, de repente ficou distante, metida consigo, fechada no quarto, parecia viver num mundo à parte, não queria falar com ninguém, era um castigo para a obrigar a ir à escola.

-Filha, perguntava Bebiana, tens algum problema que queiras partilhar com a mãe?

-Deixa-me em paz, não te metas na minha vida!
Gritou, Clarinha, enquanto batia com porta do quarto. 
Depois voltou para o seu isolamento.

A mãe nem lhe respondeu, não valia a pena.

Dona Bebiana ficou viúva há três anos, o marido de repente, sem nada o fazer prever, partiu com um AVC fulminante, quando chegou ao hospital já estava morto.

Foi difícil, ficar só e com dois filhos, um com 18 anos e outra de 9.

Arregaçou as mangas, tomou conta do negócio do marido, sem pouco ou nada perceber da padaria, mas venceu e conseguiu manter os filhos ao nível a que estavam habituados.

É verdade que o padrinho da Clarinha foi importante, deu-lhe apoio, aconselhou-a nas decisões mais difíceis, enquanto estragava a afilhada com mimos e prendas.

Aos fins-de-semana, quase sempre, aparecia para um passeio ou uma ida ao cinema, desde que houvesse filmes para a idade dela.

Clarinha idolatrava o padrinho, contava os dias que faltavam para o fim-de-semana, já sabia que ele  vinha buscar para uma ida ao Jardim Zoológico, ao Oceanário, ao cinema ou a qualquer divertimento apropriado à sua idade.

*****

De repente, Clarinha, perdeu o interesse, não quer ir com o padrinho, inventa desculpas mas não a conseguem arrancar de casa.

Dá-lhe um beijo e inventa uma desculpa.

O homem sai triste, olha para a comadre, enquanto vai dizendo:

-São fases, isso depois passa, é a idade do armário, não te preocupes!

Hoje foi de mais, cumprimentou o padrinho, ignorou a prenda, nem a desembrulhou. 
Pediu desculpa e foi tomar duche.

Bebiana ficou sem saber o que dizer:

-Desculpa Américo, eu falo com ela.

-Não vale a pena, repetiu o padrinho, deixa-a que isso passa!

Bebiana já não sabia o que fazer mas, não podia permitir, a filha estava impossível, chata, mesmo muito chata, não podia continuar assim, afinal era a mãe, boa mãe que nunca lhe faltou com nada, talvez só um pouco ausente, mas mesmo isso, por eles.

Ia tomar uma resolução, sempre resolveu os problemas, com os filhos, pelo diálogo, nunca pelo castigo. Se necessário for, pode ser um pouco mais dura, vai ter uma conversa muito séria com a filha:

-Clara, abre a porta, temos que falar e não me obrigues a rebentar o fecho!

Sentiu o rodar da chave, a filha tinha os olhos inchados, estava a chorar.

Abraçou-a, afagou-lhe os cabelos como costumava fazer, até que sentiu os soluços acalmarem.

Depois pediu:

-Clarinha o que se passa, já não te conheço! Onde está a minha filha terna e doce?

A rapariga abriu os olhos, havia medo naquele olhar.

-Fala comigo filha! Pediu Bebiana.

-Sabes mãe, começou Clarinha, não posso, se falar alguém te vai fazer mal e eu não quero!

A mãe sentou-se na cama e indicou-lhe o lugar ao lado. Agarrou-lhe a mão e garantiu:

-Não Clara! Ninguém me vai fazer mal, pedimos ao teu padrinho que nos ajude! Vá conta o que estas a esconder!

Quase em desespero a filha pediu:

-Ao padrinho não, é ele que me faz mal e que diz se eu contar tu vais pagar!

Bebiana respirou fundo, aconchegou a filha contra o peito:

-Agora percebo tudo. O que foi que ele fez?

As lágrimas saltaram, mas arranjou coragem e contou:

-Tirou-me as cuecas e mexeu em tudo, eu chorei, chamou-me menina mimada, disse que se eu contasse que dava cabo de ti, e que ninguém ia acreditar num fedelho como eu.

Depois, chorou até que as lágrimas libertaram o coração.

-Sabes, disse a mãe, eu acredito! Vais  à psicóloga para te ajudar. Eu trato dele, podes ter a certeza que o doutor, teu padrinho, não me vai  fazer nenhum mal e nunca mais molestará nenhuma criança!


O doutor, Américo Damásio, não esperava ninguém tão tarde, espreitou a ainda ficou mais confuso, a comadre Bebiana a estas horas, devia ser urgente. Abriu a porta com um sorriso:

-Tu aqui a estas horas, que se passa? Entra! Vamos para a sala!


*****

A senhora da limpeza encontrou o cadáver.
Estava recostado no sofá, no meio da testa um furo negro, de sangue seco, na mão direita apertava, ainda, uma pequena Beretta 21.

Suicídio, foi o veredicto.

Os negócios não lhe estavam a correr muito bem!

Efeitos da crise!
Que fazer?




18 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Um tema muito delicado e que merece ser bem estudado.
As vítimas, as crianças, são aqueles que mais sofrem e muitas marcas nunca desaparecem.

O final deveria ter sido o início. Assim poupava a afilhada de tanto sofrimento.

✿ chica disse...

Qualquer mãe faria o mesmo com um padrinho ou qualquer outro desgraçado ,tarado que se aproximasse assim dessa forma suja e vil de sua filha! Eu faria, com certeza! ( e aproveita que tô calma,rs...) abração, lindo,triste fatos e acontecem tantos assim,onde as crianças temem falar!)

chica

São disse...

Não me surpreendeu isolamento assim que apareceu o padrinho...e compreendo muito bem o que essa mãe fez!!

E mesmo que a descobrissem, não deveria cumprir pena...

Pedofilia é doença? Pois, mas eu tenho que defender quem é a vítima , ou seja, a criança!!

Tudo de bom

LUZ disse...

Mais um tarado sexual, que teve o justo e merecido fim. Nota 20.

Bom fim semana.

Beijinhos.

Magia da Inês disse...

✿°
º•°✿✿
Uma boa história mas eu esperava que ele fosse para a cadeia para experimentar o tratamento vip de lá.


¸.•°❤❤°•.¸
Bom fim de semana!
Beijinhos do Brasil.
·.¸.•♪♪

Palavras disse...

Viu???? Brincou com a filha errada, ou melhor, com a filha errada da mãe certa!!!

grande abraço meu amigo


Leila

Rita Sperchi disse...

Uma verdade escrita ai, tem muitos desses animais que não são gente e sim animal mesmo, mereceu o que procurou....Muito triste!

ღღ¸╭•⊰✿¸.•*ღ ღ¸╭•⊰✿¸.•*
Tenha um domingo feliz
bjusss
Rita!!!

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Não dá pra confiar...nem em padrinho! Uma "vendetta" e tanto, Manuel...um tema bem oportuno, a ser tratado. São tantas as ocorrências, que virou "calamidade pública". Uma história bem "bolada" para para abordar o assunto. Valeu!
Bom domingo, meu abraço.

Evanir disse...

Uma história muito bem elaborada meu amigo.
Venho desejar um feliz Domingo agradecer pelas suas visitas ,
que nesse momento faz toda diferença.
Um abraço com muito carinho,
Evanir.

© Piedade Araújo Sol disse...

bem elaborado, embora o final não fosse o que eu congeminava.

bom trabalho!

boa semana e muita inspiração para as tuas estórias.

:)

Maria Luisa Adães disse...

Encantada por o encontrar!
Belo seu texto!
Um pouco doente eu estou!
Parece-me que minha saúde não dá para ter um blogs e raramente responder aos amigos.
Me sinto triste por isso!

Abraço,

Maria Luísa

Maria Luisa Adães disse...

Única coisa a fazer
ao mais canalha do mundo!

Maria Luísa

Evanir disse...

Alguns anos se passou sonhava voar com as borboletas ,
em meus pensamentos voei sobre os mais lindos jardins em flor.
O tempo foi passando sonhava voar como um colibri,
e voei nos meus pensamentos na velocidade do beija flor.
Em cada jardim beijava colhendo o nectar das flores
e sonhava com a felicidade a cada quilometro de voou.
Alguns anos se passaram meus sonhos mudaram
hoje sonho voar como a Àguia quem
sabe alçar livre meu último voou ,
ir de encontro ao firmamento e finalmente encontrar
a paz para meu coração.
Que bom é estar perto de ti
Sentir tua paz em meu coração .
Deus abençoe o seu Dia e o meu também.
Paz e Luz de Jesus.
Evanir.
A sala abaixo é para vc escolher aquilo que vc gostar
por favor deixar o recado que levou estarei fazer um award do seu blog
e colocando no rolando junto com os outros.
Que esta a esquerda do blog.
http://aviagempremiosoferecidos.blogspot.com.br/
Desde já meu agradecimento pela sua amizade.
Breve estarei me afastando de vocês.
Eu acredito que não voou conseguir
continuar sem me afastar
talvez a partir do final desse mês.
Agradeço o carinho que sempre recebi de si
Deus é pai e sabe quanto amo cada um de vcs
que sempre dedicou o melhor de si
para mim.

Mary disse...

Infelizmente é uma realidade triste, confiar em alguém? nem pensar, mesmo sendo padrinho.

E sobre o final...Bem merecido,ele mereceu!

Bjos querido Manuel,obrigada!

Flor de Lótus disse...

Olá,Manoel!Essa é uma situação bastante delicada sorte dela que a mãe acreditou nela porque muitas vezes acontecem de os pais não acreditarem nos filhos.
Para um ser desses só a morte resolve o problema.
Beijosss

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Meu querido Manuel

Mais uma estória que adorei ler, mas que infelizmente podia ser verdadeira.
E o fim foi o merecido.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Evanir disse...

Boa Noite amigo..
Com alguns problemas mais aqui estou para desejar um abençoada semana.
Beijos fica com Deus..
Evanir.

SOL da Esteva disse...

Manuel
Este Conto tem a conta do dia a dia; acaba por ser muito real para quem tem a cobardia do suicídio ou a coragem da mãe assassina; infelizmente,a Justiça beneficia o criminoso.
Bem actual esta tua Estória!


Abraços


SOL