quinta-feira, 19 de março de 2015

A inimiga alemã








Já sentia um pouco a idade, eram os ossos, os malditos ossos que o atormentavam, o pior eram os joelhos, uma dor aguda e dificuldade em mover as pernas. Depois, conforme se ia mexendo as coisas compunham-se um bocadinho.


O neto dizia:

Vai aquecendo e melhora!

Se calhar tinha razão.

Já pediu ao filho, Afonso, que lhe mandasse vir uns daqueles comprimidos que anunciam na televisão, mas torto com era, dizia que eram charlatanices para apanhar o dinheiro aos papalvos.

O filho era um sovina, isso é que era, ficava-lhe com o dinheiro da pensão, era pouco mas era a sua pensão.

É verdade que não lhe faltava nada, até podia beber uma pinga, ou um café, no Zé da Esquina, que o filho deu ordem, para o que fosse, ele depois ia pagar.

Mas a mezinha, da televisão, dizia que era uma banha da cobra. Mas não é! O Marcelo toma e diz que está melhor, coxeia na mesma mas diz que já não tem dor, só não percebe uma coisa "se não lhe dói porque será que continua a coxear?". Quando o vir já lhe pergunta.

Há uma coisa que o preocupa, antes lembrava-se de tudo, mas mesmo de tudo, até sabia os dias em que os filhos e os netos faziam anos, nunca se esquecia.
Agora já lhe escapam muitas coisas. É verdade que tem 81 anos e, que depois que a sua Emília morreu, ficou muito abalado, mas ele sabia que as coisas eram mesmo assim, a pobrezinha era muito doente e aquela falta de ar não a ajudou nada, mesmo nada.
Um dia, coitada, sentiu-se mal, ainda a levaram para o hospital mas não havia nada a fazer.

Só não percebe, gostava muito da sua Emília, foram 52 anos de casamento mas não sentiu muito a sua morte. Foi mais o pensar que não tardava lhe podia calhar a vez.

Ontem foi dar uma volta, para desentorpecer as pernas, e não é que às tantas se perdeu.

Não sabe como fez aquilo e já estava a ficar preocupado quando ouviu:

-Então Tóino! Que anda a fazer para estas bandas?

Era a Benedita, não quis dar parte fraca, por isso disfarçou:

-Olha rapariga ando a estender as pernas e, agora já estava confuso, não costumo vir para estes lados.

-Ai Tóino, Tóino, que se passa contigo? Não tardava muito estavas no pinhal e ainda te perdias!

-Quem, eu? Achas que me perdia? Conheço estes caminhos como os dedos da minha mão. Estou só cansado, mais nada!

-Vá, anda comigo! Exclamou Benedita, sempre vamos acompanhados.

Voltou a casa, sentou-se no sofá e adormeceu. Foi o filho que o foi chamar:

-Então pai hoje não tem fome? Dorme e nem se lembra de jantar.

-Não, respondeu, não estou a dormir! Estava só a pensar na minha vida!

-Mas que se passa consigo? Insistiu o filho, a Benedita disse-me que andava perdido ao pé do pinhal do Cerco?

-Quem eu? Respondeu, deves estar a mangar comigo, não vou para esses sítios há muito tempo e não vejo a Benedita desde o funeral da tua mãe. Estás sempre na brincadeira! Vamos lá jantar porque tenho fome.


Manhã, não muito cedo, depois do pequeno-almoço, saiu para ir ao café do Zé da esquina, fazer um joguinho de dominó com quem lá estivesse. Fosse quem fosse, ia para ganhar e alguém ia pagar as minis.

A cabeça estava num reboliço, quando deu por ele estava numa estrada que não conhecia, devia ser nova pois nunca a tinha visto antes.
São coisas desses tipos da câmara, chegam mudam as ruas sem dizer nada e de repente uma pessoa pensa que tem que virar à direita, sempre foi assim, e chega e agora já é a esquerda, quando não é em frente.

Mas a estrada não está ali para nada, nem um carro, nem viva alma, foi desperdício de dinheiro fazer uma estrada onde não havia carros. Estes autarcas!

Ia atravessar aquelas arvores para encontrar, de certeza, uma rua conhecida, no outro lado, e não tardava estava na praça e daí já se orientava.

Ai esta cabeça! Quem havia de dizer que se ia desorientar.

Estava tanto calor e as pernas já reclamavam descanso, que ia sentar-se um bocadinho à sombra daquela árvore grande. Parecia uma oliveira, mas não se lembra de nenhum olival neste sítio. Mas está lá e se está é de alguém. De quem será?


Bem vai descansar um pouco, os torrões fazem roer o rabo mas dá para cochilar um bocadinho.

********

Afonso estava a ficar preocupado, oito horas e o pai que era, sempre, o primeiro quando chegava a hora da janta sem aparecer.

Já foi ao café e dizem que o pai não apareceu por lá hoje, nem neste nem em nenhum dos poisos habituais.

Foi à polícia e aos bombeiros, pediu ajuda aos vizinhos mas hoje pouco puderam fazer a noite estava a cair e era difícil a busca, amanhã bem cedo iam dividir-se e fazer uma batida a todos os cantos e espreitar todos os poços.
Não era que pensassem em algum acto do Ti Tónio, mas podia ter havido alguma distracção, era melhor espreitar.

Ainda mal tinha rompido a madrugada e, o pessoal dividido por grupos e orientados pelos bombeiros, mais experientes, começaram a vasculhar todos os cantos.
O pinhal, como o mais provável, foi esquadrilhado de forma minuciosa, não houve moita nem recanto que ficasse por observar.
O Portela levou dois cães, bons farejadores, para ajudar mas os bichos andavam mais interessados nas rolas que esvoaçavam entre os pinheiros.

A noite não tardava e embora os homens se tenham revezado o desalento começava a invadir a moral de todos.
Os piores pensamentos surgiam e, em surdina, já se ouvia a hipótese de o velhote puder estar morto em algum canto, ao fim do dia arrefece e nem todos aguentam uma noite, sem comer e ao relento.

Às 8 horas era noite, nem com lanternas se conseguia enxergar no meio dos pinheiros e das urzes, era hora de desistir e recomeçar amanhã de manhã.

******

Na casa do Afonso, também do Ti Tónio, o desalento era total, até os netos sempre na brincadeira, estavam num sossego que doía.

Jantaram mas parecia, mais, um velório pois só o barulho dos talheres quebrava o silêncio que enchia a casa.

Afonso recriminava-se, já devia ter notado que o pai não estava o mesmo, aqueles esquecimentos, aquela falta de orientação era indício de algo de não estar muito bem.

Começava a ter receio e só pedia a Deus que o encontrassem. Se possível bem.

Já passava da uma da madrugada quando duas pancadas fortes, na porta, tiraram Afonso dos seus pensamentos.
Ficou muito assustado, pensou o pior mas correu para ver quem batia.

Abriu a porta e, na sua frente, o pai sujo de terra e com ar muito cansado.

-Oh pai que susto pregou a toda a gente! Meu Deus obrigado.
Entra e vai descansar que eu trato de ti.
Mas por onde andastes perdido?

Olhou o filho sem perceber bem toda a aflição.

-A culpa é desses da Camara, que mudam as ruas, vê lá tu que até puseram um olival no caminho do café do Zé da Esquina. Entrei nele e se não fosse a tua mãe não conseguia dar com o caminho.
Foi ela que me encontrou e me trouxe para casa.
Não sei o que seria sem ela!





25 comentários:

✿ chica disse...

Que lindo conto e que triste essa doença...Pega de uma hora para outra, após avisos sutis!E pra ela. nada de cura efetiva! Linda como sempre te ler! abraços,chica

dilita disse...

Olá Manuel

Hoje isto é demasiado real. Já me via a mim no papel do Ti Tónio... E se há algo que me assusta é a possibilidade de "ganhar" uma doença deste género...
Quanto ao principal, mais um trabalho bonito,cativante. Gostei!
Abraço.
Dilita

Mirtes Stolze. disse...

Bom dia Manuel.
Meu lindo amigo como é bom ler os seus contos, como sabe eu sou sonhadora rsrs e acredito em outros vidas [ em espíritos] acho que de fato o Ti Tonio se perdeu e a sua esposa o orientou ate chegar em casa rsrs. A minha falecida mãe me contava cada caso mais ou menos como esse conto onde pessoas queridas eram ajudadas pelas pessoa que tinha partido, que de fato acredito. Quanto essa doença que atinge tantas pessoas, deve todos ter muita paciência e amor para cuidar com carinho as pessoas afetadas. Um lindo final de semana.
Beijos.

Mirtes Stolze. disse...

Bom dia Manuel.
Meu lindo amigo como é bom ler os seus contos, como sabe eu sou sonhadora rsrs e acredito em outros vidas [ em espíritos] acho que de fato o Ti Tonio se perdeu e a sua esposa o orientou ate chegar em casa rsrs. Quanto a esse doença é necessário muito amor para com todos que apresente essa enfermidade.
Um lindo fds.
Beijos.
Obs essa é segunda fez que faço o comentário e ele não entra, como sabe que eu não desisto, vou comentar ate a minha postagem entrar rsrs.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

Mais um belíssimo texto; claro,pois tu não sabes escrever mal...

Alzeimer é coisa terrível e eu que o diga: na minha família da parte da minha Mãe já houve dois casos e, naturalmente, acabaram mal.

Tu abordaste o problema - mas, sempre a maldita adversativa - ficaste-te nas entrelinhas e muita gente pode não ter percebido do que tratavas.

É tema muito importante e muito controverso; nas informações médicas que leio no Google/Wikipédia parece que há novas técnicas para descobrir antecipadamente o terrível mal. Oxalá se chegue a bom termo - e rapidamente.

Porém, com o título deste-me um susto: julguei que se tratava da Frau Merkel... Longe vá o agouro...

Abç

E agora uma boa notícia: estou praticamente curado!!!! Já não era sem tempo... Ganda porra!!!!

Maria Luisa Adães disse...

Triste, mas muito bem contado!
Li com atenção e tudo isso pode acontecer a qualquer um, sem se esperar, a pessoa se perde e enquanto sabe quem é...encantados! Mas também deixa de saber quem é e quem foi...e nada a fazer!

Muito bem escrito!
Peço desculpa pela ausência, mas regressei do Brasil e a saúde minha e de meu marido, ainda está incógnita.

Que Deus nos ajude, amigo!

Grata pela gentileza de passar pelos "7degraus" "tantas vezes, só para desejar um bom dia!

Porque não somos todos assim?
Mas não somos...

Abraço,

Maria luísa

São disse...

O meu pânico maior é ficar dependente seja de que modo seja...

Boa Primavera!

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Sendo eu, a mais nova de seis irmãos, e já às vésperas de situação semelhante ao do protagonista, tenho convivido com irmão e cunhado já oitentões com grandes falhas de memórias do presentes...: lembram de fatos bem antigos e muitos fatos recentes se apagam. Faz parte, mas é triste! O relato da crônica, está perfeito...
Tenha um feliz final de semana, Manuel. Beijo!

CÉU disse...

O que faz a idade, e é bem verdade. Todavia, o velhote estava feliz e tranquilo, pke a sua Emília o tinha trazido para casa. O desvio foi culpa da câmara, disse ele. O amor é mto forte e 52 anos de convivência contam mto.

Amanhã, comemora-se o Dia Mundial da Poesia, portanto, haverá nova publicação no meu blogue.

Bom fim de semana!

dilita disse...

Olá Manuel

Voltei, mas para lhe agradecer a visita no meu Birras, e as bonitas palavras, e outras de incitamento, e também a observação acerca do á... Por vezes falho e nem dou por isso - vou ter atenção.
Portanto, agradecimentos redobrados.
Abraço, e bom fim de semana.
Dilita

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Toda a nossa vida é um risco.
A Juventude corre acelerada e depressa nos vemos numa idade adulta e com mazelas que se manifestam.
Precisamos de coragem para viver e aceitar as próprias limitações.

Magia da Inês disse...

シ Nossa!!!
Pensar que é isso que me aguarda... se viver tanto, com toda essa química dos dias de hoje!!!
Sabe,
devemos velar muito por nossos entes queridos idosos... vivem no nosso coração!...

Ótimo fim de semana!
Tudo de bom!
Beijinhos.هჱ⊱
⋰˚هჱܓ

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manelamigo

Depois da tempestade veio a bonança. E só não veio a Primavera porque cá não se usa...

Mas volto aqui para te deixar uma informação que não dei em tempo oportuno porque o cagaço era tamanho quem nem queria pensar nisso, muito menos dizer:

Estive em risco de ME CORTAREM A PERNA ESQUERDA!!!!!!!

Mas felizmente as nuvens negras desapareceram...


Abç

CÉU disse...

Manuel,

Agradeço a sua visita e comentário.
Acredite que as minhas palavras não são inimigas das suas, nem vice-versa. São portuguesas, portanto, entendem-se, lindamente.

Bom domingo.

PS: deixei um recadinho para si no meu blogue.

Magia da Inês disse...



Ótima semana!
Tudo de bom!
Beijinhos.هჱ⊱
⋰˚هჱܓ

Mirtes Stolze. disse...

Querido Manuel.
Vim lhe agradecer pelo seu carinho e desejar uma linda semana como bem merece. Um grande abraço.

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Nesta madrugada passei por aqui novamente e reli esta escrita como uma reportagem comum. Bem feita, clara e cativante de situações comuns.
O meu falecido Pai dizia:
- "Aos pontos que nós chegamos!..."

Ainda assim deu-lhe um final digno.
O Velho voltou abraçado nas próprias ilusões.

Rosa Camara disse...

Nossa, convivo com um pai idoso e sei bem como são esses esquecimentos e lembranças. Realidade. Lindo texto!

Mirtes Stolze. disse...

Boa noite Amigo, estou fazendo uma brincadeira um Enquete, se possível gostaria de contar com a sua participação, pois queria saber a sua opinião. Uma linda noite.
Beijos.

Janita disse...

Esse "alemão" atemoriza mais do que a Merkel, Manuel!
É uma doença terrível que faz da vida das pessoas, uma forma de viver que se transforma num vegetar.
Morrer é ter mais sorte!
Mas quem pode escolher a sua sorte? Ninguém!
Realista e profunda esta narrativa.

Um abraço.

Mary disse...

Oi querido, saudades!

Queria te enviar um conto,não tenho seu email!


Bjos

Mirtes Stolze. disse...

Bom dia Manuel.
Obrigada meu convencido [brincadeira] amigo pela participação rsrs, obrigada pelo carinho. Um forte abraço.

Smareis disse...

Muito triste essa doença. Quem sofre mais são os que convive com a pessoa. A família.
Uma doença que chega em silêncio e quando a pessoa vê já é tarde. Assim aconteceu com minha sogra. Não tem mais medicação que controla, e a cada dia a memória vai apagando.
Uma excelente história!
Bjs!

Carmem Grinheiro disse...

Ai, Manuel!
Triste já eu ando, e leio este seu conto, em que se superou na escrita tão bem talhada, mas que me emocionou, porque estas doenças são endemoniadas e assustam-me demais. Com um final surpreendente em que vai buscar auxílio a uma crença que se deseja bonita: haja quem olhe por nós.
Bonito, Manuel.
Agradeço seu carinho sempre presente. Tenha um bom fim de semana.
bj amg

SOL da Esteva disse...

O drama que se vai assenhoreando, sem contemplações, dos mais idosos. Com tanta Ciência ainda se não vislumbra o caminho sem caminhos desconhecidos ou olivais no meio das ruas.
Um bom tema para regflexão de todos.
Tenho sentido esta proximidade e, digo-o, é assustadora a ideia.
Parabéns, Manuel, pelo Conto com realidades dentro.


Abraços


SOL