sábado, 4 de abril de 2015

P.... de Vida









-Zé, Zé!!! Anda cá homem, que eu não me entendo com estas modernices da internet e, a nossa filha, está num tal Skype a falar e eu não sei o que fazer.

-Mulher nunca mais aprendes!  Só sabes mexer na televisão porque dá as telenovelas, senão nem isso sabias fazer.

-Então agora estás a dar uma de parvo, ou que? Eu não vejo só telenovelas, também gosto muito daquela da Casa dos Segredos, eu não sou assim tão burra como estás a dizer.

-Pois não mulher, não és assim tão burra, és muito pior. Quem vê aquele ninho de víboras e, de poucas vergonhas, não é parvo é um IMBECIL chapado. E a tua filha, em vez de estar nesse tal do Skype, se estivesse aqui, em casa, ao pé dos pais, estava muito melhor.

-Mas homem! A rapariga é nova e precisa de se divertir!

-Pois é mulher, deve ser um divertimento muito especial. Não quer estudar, trabalhar é bom para os pais que são velhos, anda sempre em festas e, nessa coisa que ela diz, eventos. Nem sei bem o que são esses eventos, nem para o que servem?

-Oh homem, que feitio o teu, os eventos são para se cultivar e conhecer pessoas importantes.

-Sabes que mais? Vai lá, a esse Skype, e pergunta-lhe onde está, para precisar dele. E diz que a quero aqui, em casa, antes da hora do jantar.

A mulher foi, mas voltou de imediato. Parecia estar preocupado, ou mais propriamente  receosa.

-Zé, aquilo já estava desligado, a rapariga estava longe e essas chamadas devem ser caras.

-Caras? Qual caras! Aquilo é de graça, todos tem essa coisa no computador para falar à borla.

-Se calhar, disse a mulher, era por estar em Espanha que é longe!

-Mas, perguntou o homem, está em Espanha como? A fazer o que? Como tem dinheiro para essas passeatas?

A mulher começou a enrolar as mãos na saia o que, para ela, era sinal de algum nervosismo.

Ela reconhecia que o homem tinha razão, mas a rapariga era nova, ainda só tinha 28 anos, precisava de se divertir.
Tinha que enfrentar o marido, ia defender a filha até ao fim.

-Fui eu que lhe paguei as viagens e como não trabalho fora, mas trabalho muito em casa, tenho direito a ajudar a minha menina. Ela tem ainda muito tempo para enfrentar os problemas da vida, muito tempo, por isso queria ver os
Supertramp em Madrid e foi a Madrid ver. Pronto!

-E mais nada! É assim que se fala, a menina quis e pronto, não importa que o pai trabalhe, do nascer ao por do Sol, não interessa que ande há três meses com uma dor num dente e sem possibilidade de ir ao dentista. Não interessa o importante é que aquela inútil, que nunca sujou as mãos a trabalhar, que desistiu de estudar, diz ela que foi só por que não gosta de se levantar cedo, quando todos sabem que é burra, burra como a mãe que lhe apara todos os golpes. Eu estou farto, faaarrrrtttooo, disto tudo e vou resolver à minha maneira. Vais ver se não resolvo!

-Mas ouve lá homem, o que é que vais resolver? Não há nada que possas fazer e não te metas onde não deves! Ouviste bem?

O homem não queria acreditar no que estava a ouvir a mulher, sempre apagada, de repente espevita, mostra as garras como uma leoa, a defender a filha. Não estava a gostar do aspecto, não fazia parte do programa.

Apeteceu-lhe vestir o casaco sair pela porta fora mas, era dar o flanco, perder o pouco de respeito que ainda lhe tinham.

Cegou, de repente perdeu a cabeça, e fez a maior asneira da sua vida.
Deu uma valente surra na mulher. Depois arrependeu-se, não era desses tipo de homem, arrependeu-se mas era tarde.
Agora  sim, vestiu o casaco e foi apanhar uma bebedeira.

*****

Voltou, eram duas da manhã, em ziguezagues, numa rua que parecia um carrossel.
Estava perdido, encharcado em vinho, pensamento embotado pelo álcool mas preocupado, não tinha chave de casa e não queria acordar ninguém.

Dirigiu-se, cambaleante, para a porta mas dois policias, que pareciam ter aparecido do nada, pegaram-lhe nos braços e perguntaram:

-O senhor é o José Godofredo Machado?

Que giro, os tipos conheciam-no, mas ele não, e se o conheciam era melhor responder:

-Sou sim senhor, um criado às vossas ordens!

O mais alto, o que tinha bigode, segurou com mais força e, numa espécie, de grunhido convidou-o:

-Tem que nos acompanhar à esquadra, está detido para ser presente a juiz.

O carro, os polícias e todos tiveram sorte, pois quando se ia a voltar, o estômago, deu uma volta, as entranhas pareciam ter subido à boca e zás, foi como se abrissem a comporta, o vómito saltou e foi projectar-se, com estrondo, na calçada e na parede. Se não estivesse seguro tinha ido atrás da enxurrada.

Os polícias desistiram do carro, foram a pé, um de cada lado, arrastando a triste figura de um homem, salpicado de alto abaixo, de uma mistura com um cheiro misto de vinho e azedo.

Quando chegaram à esquadra, o colega que fazia sentinela, não conseguiu suster o riso, o quadro era digno de uma comédia, e teve que comentar:

-Então encontraram esse, no lixo, e trazem para aqui o pivete?

O do bigode aproveitou para ripostar:

-Pois, como estás a ver! E agora vais dar-lhe um banhinho para ver se melhora.

******

Foi um fim-de-semana na esquadra, deixaram-no tomar banho, não havia outra hipótese,  e lá lhe amanharam uma roupa limpa para ouvir o que o juiz tinha para lhe dizer.

****

Teve sorte, sempre foi pessoa de bem, não tinha antecedentes e a mulher desistiu da queixa.
Ouviu uma reprimenda, ficou a saber que numa próxima não teria desculpa mas, por agora podia ir em paz.

****

As coisas estavam diferentes, falavam mas as palavras não tinham emoção, o respeito e a delicadezas foram com a primeira bofetada, o amor esse há muito se tinha perdido nos meandros das rotinas.

Passavam ao lado, um do outro, estavam perto mas tão distantes.

Ele tinha pena, muita pena, mas sabia que o destino não volta, o mal não se apaga e as feridas saram mas deixam a marca, marca que por vezes dói mais que a ferida que a provocou.

Não foi, totalmente, culpado mas sabe que a maior parte lhe cabe, está arrependido e quer dar uma oportunidade à vida, não será igual mas pode ser o suficiente.

Hoje foi mais cordial com a mulher, deu-lhe um bom dia mais emotivo, meteu conversa e quis saber notícias da filha. Com delicadeza perguntou:

-Sabes se aquele concerto, dos
Supertramp, ainda vai durar muito?

-Já me tinha esquecido, disse a mulher, a nossa Vanessa arranjou um namorado, em Espanha, um rapaz muito fino e de boas famílias.
Vêm viver, aqui, para nossa casa, estou a pensar em dar o nosso quarto e, nós, vamos para o quarto que era da nossa menina.
Achas bem, não achas?

-Depende de quem vai dormir no chão, a cama da Vanessa é pequenina! Não reconheces?

-Já pensei em tudo, vou comprar outra cama, uma para mim e outra para ti. Não precisamos de cama de casal, já não somos, isso, há muito tempo.

-É verdade, eu, não aprecio bonecas insufláveis! E onde é que trabalha, esse tal, teu futuro genro?

-Em nada, agora fica aqui com a gente e logo se vê, onde comem três, também, comem quatro. Respondeu a mulher.


-Só mais uma pergunta, se eu repetir a dose, da última vez, o que me acontece?

A mulher pareceu não ficar assustada, olhou-o nos olhos e respondeu:

-Vais preso e nunca mais te podes aproximar de mim. Nunca mais! Ouvistes!

-Que bom! Respondeu Zé, é isso mesmo que eu quero.
Podes começar a gritar e a chamar a polícia!

Porque nunca mais me quero aproximar de ti!











13 comentários:

São disse...

Interessante...

feliz Páscoa

Evanir disse...

O meu desejo é que o seu Domingo seja muito feliz e abençoado!
E que eu possa continuar
tendo uma amizade tão especial como a sua!
Feliz Páscoa!
Beijos e meu eterno carinho.
Evanir.

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Violento Manuel...
Superdose...
Todos sabemos que um mal nunca vem só.
A cadeia de do mal não começou com a bebedeira mas com o desculpar dos caprichos da menina...
Hoje cultiva-se a destruição dos valores da boa educação e do trabalho.

"A malta não precisa de trabalhar..."
O pai dá...

Gracita disse...

Olá Manuel
É compreensível a irritação do Zé mas daí surrar a mulher... inconcebível

Espero que ao abrir teu ovo da páscoa você encontre dentro dele um bombom de amor com os meus desejos de uma feliz e abençoada páscoa
Um domingo feliz pra você e os teus
Beijos no coração

Mirtes Stolze. disse...

Boa tarde Manuel.
Todos ação tem uma reação, nesse conto tudo bem errado, primeiro os pais tem que incentivar os filhos a serem independente independente do poder aquisitivo deles. A filha com 28 anos já deveria ser independente, no minimo cursando uma faculdade. O marido jamais deveria levar a mão para a sua esposa, quando um casamento chega a esse ponto o melhor com certeza é a separação. Enfim um conto bem violento, onde existe o desrespeito evidente, dos envolvidos. Uma linda semana meu amigo. Beijos.

Smareis disse...

Olá Manuel!
Desculpa a demora em aparecer, estava fazendo uma pequena viagem não muito agradável, faleceu uma pessoa da minha família muito querida há sete dias, por isso andei um pouco ausente da net.

Achei muito criativo e forte a história. Uma realidade que a gente encontra por esse mundão. Uma família que foi desgastada pela falta de respeito uns pelos outros. Bater na mulher foi um grande erro. A violência e o desrespeito acaba com qualquer amor e destrói qualquer união. Viver assim é melhor separar.

Uma ótima semana!
Um ótimo mês
Um abraço, e um sorriso!
Blog da Smareis

SOL da Esteva disse...

Só saíram "duques", ao Zé; vê-se que não tinha sorte nenhuma.
A violência foi o "jocker"; por aí, não se joga nada.
Um (demasiado) actual Conto. Parece ser o destino dos "velhotes".
Parabéns, Manuel.



Abraços



SOL

CÉU disse...

Ele há vidas...!

Uma história à portuguesa, com certeza! A minha solidariedade para com o "Zé".

Dias felizes!

Sandra Botelho disse...

Como consegui ficar tanto tempo sem ler-te? Não sei... Mas cá estou eu e de novo encantada com teus escritos.
Amei. Bjos achocolatados amigo querido

Smareis disse...

Oi Manuel, esqueci de dizer no meu comentário acima que já tinha atualização no blog.
Bjs e ótima quinta.

Magia da Inês disse...

♭♫ه° ·.
Que triste! Retrato da vida!!!

Bom fim de semana!
Beijinhos.
Brasil.
ه°·✿
·.ه✿✿ミ

Carmem Grinheiro disse...

Olá, Manuel.
Tragédia torna-se sinónimo de vida.
abç

dilita disse...

Olá Manuel,
Mesmo neste caso dramático,o Manuel consegue juntar um pouco de humor... grande a sua sensibilidade e arte.
Apreciei de verdade.
Abraço.
Dilita